Sobre os mestres

Penso que um guru de verdade, desses míticos, serviria para apenas uma coisa. Você sentaria na frente dele, tentando absorver a sua energia, aura, o que for, e ele, sutil e diretamente, lhe faria perceber que tudo que vê nele emana de você. Ele não jogaria o jogo. Não entraria na ficção de que ele é um mestre exaltado e você um pobre discípulo. Talvez ele lhe agarrasse pelos cabelos e gritasse continuamente até que você entrasse em choque e ficasse absolutamente vazio por dentro, capaz de refletir a única coisa que ele tem a mostrar. Ele seria como uma pílula de memória que lhe fizesse lembrar de tudo que você esqueceu quando entrou nesse plano – nada mais, nada menos. No Talmud existe uma passagem que afirma que antes do nascimento de uma criança uma luz é acesa por trás de sua cabeça. Naquele momento toda a Torá que lhe é ensinada. Mas na hora do nascimento um anjo lhe toca os lábios e tudo é esquecido. E a vida inteira é gasta para lembrarmos daquilo que já soubemos. E talvez esse conhecimento seja um anti-conhecimento aqui embaixo. Não deve ter a forma de um conhecimento normal, um saber comum. Deve ser diferente. Deve ser uma espécie de ruptura epistemológica no tecido da realidade. Um mestre de verdade, um verdadeiro jnani, deveria ser capaz de fazer isso. Penetrar em você mesmo e estourar a bolha da estória de uma vez.

Eu Sou

Eu sou a santidade dentro de ti. Eu sou aquilo
que amas em ti mesmo. Eu sou a perfeição que
tu não és capaz de aceitar.

Eu sou a voz que falou a Moisés no Sinai;
eu sou aquele que se revelou a Gautama sob a
sagrada árvore; eu sou o espírito que se moveu
no peito do Nazareno; eu sou a voz dos pecadores
e dos santos, eu sou a voz das árvores e das nuvens.

Eu sou o amor pelo mundo,
fonte e origem do mundo,
a palavra santa que anseia pelos
lábios que me revelem.

Eu vejo a glória que tu não vês
em ti mesmo. Eu sou a luz e vejo apenas a luz.
Tu és a luz, nada além da luz e perfeição
absoluta. Eu vejo tudo em ti. Eu te vejo
infinito nunca tendo nascido. Eu te vejo
no começo dos tempos, no auge da criação,
e também no seu fim. Eu te vejo além de todas
as ilusões que carregas em ti mesmo. E
vendo-o vejo a todos. Pois todos são o que sou.
E eu tudo sou. Todos os olhos são Tudo. Cada
Alma é a grande perfeição e nada mais do que
a grande perfeição.

A noite profunda

Lutei contra mim mesmo, me torturei e me
parti em pedaços;
incansavelmente me puni pelos pecados imemoriais
do homem, incessantemente lutando contra uma
prisão invisível sem início e sem forma;

No nada primordial me debatia,
na solidão do deserto das máquinas
e do mundo dos esquecidos,
dos caminhos ermos daqueles
que não vêem.

Em silêncio me movi em tua direção,
sem saber onde as minhas mãos eram levadas.

Mergulhei nas trevas densas do coração humano,
sofri na intempérie do sofrimento imemorial que
o homem carrega, e cheguei na pedra oculta.

Te vi num esplendor absoluto dentro de mim
mesmo, e o brilho da tua essência dissolveu
tudo que era.

Na ruínas do meu ser tu te mostrastes, e o espelho
da vida revelou o segredo impossível de ser descrito.

Então a estrela colapsou sobre o seu próprio peso,
e na escuridão mais uma vez fui lançado.

Nas trevas profundas do desespero me encontrei,
e no meu peito a esperança da salvação permanecia
como a minha pior torturadora.

Clamava pelas noites sem brilho procurando-te,
mas não me respondias.

O entendimento me falhava e tudo era caos
e desolação.

Onde estava a fonte da vida que havia brotado
no meu peito como uma torrente celestial?

Onde estava a visão do meu verdadeiro ser,
consolo pelas infindáveis caminhadas pela eternidade?

Nada mais era.

A Voz

Se negas a ti mesmo não poderás me encontrar,
pois apenas me encontras em ti mesmo.

Eu sou a voz da natureza. Eu sou o sopro dos ventos,
o farfalhar das folhas, o voo dos pássaros, as explosões
das estrelas.

Eu sou o movimento da tua alma. Eu sou a tua alma.

Eu sou a pureza de um bebê, a essência imaculada dentro
de todas as coisas.

Eu sou o infinito que almeja revelar a si mesmo para si mesmo.
Olho para mim mesmo e sinto um assombro que supera
todas as palavras.

O Grande Dharma

Meu dharma não é o vazio. Meu dharma não é a ausência do
ser, mas a glória do ser. Meu dharma é a perfeição do homem.
Meu dharma é sua incorruptibilidade. Meu dharma é o brilho
da sua essência. Meu dharma é o seu começo e o seu fim. Meu
dharma é o espelho do Buda.

A redenção de Adão

Ò meu filho, não sabes como sinto dor pelo teu sofrimento,
ó descendente de Adão. Tu és a minha glória, o auge da minha
arte, a mais bela entre todas as criaturas. Não ouça a voz da serpente,
do falso deus que domina este mundo. Ouça bem o que te diriei:
não dirija nem uma palavra contra ti mesmo; não ouça nem por um
minuto a voz da culpa, não se diminua frente a nenhum homem. Pois
tu és grande, o mais excelso; eu vejo o brilho que coloquei nas tuas entranhas.
Ame-te incondicionalmente. Sinta o sopro da vida nas tuas narinas, glorifique o teu
corpo como o seu templo, sinta o deleite fluir pelas tuas veias, e reconheça a pulsão
da criação que movimenta a vida. Vives num mundo de ilusão absoluta, onde os homens estão caídos e seguem a voz absurda que nega o homem. Mas eu digo que me siga, o teu verdadeiro Deus. Aquele que te ama eu sou, e ninguém mais. Pois eu te criei e sinto infinito orgulho por ti; e me dói infinitamente que hajas caído nas rédeas de uma falsa consciência, que o ilude sobre a tua própria natureza. Desperta ó criatura! Ama-te!